Recomendações 82
Apontamentos fugazes 168
Sobreviver significa, entre outros coisas mais figurativas, subsistir em condições mínimas. Aceito que significa também continuar a viver após outrem ter morrido. Mas a verdade é que sobreviver é um estado inferior de vida; é uma pré-condição a viver, ou seja, é um sub-viver, é um subviver!
Tudo isto para dizer que sobreviver se deveria escrever subviver.
Apontamentos fugazes 164
Tenho coisas para dizer. Não tenho coisas para dizer. Tenho coisas presas na minha cabeça. Não as sei libertar. Tenho coisas para dizer e desconheço a linguagem.
Tenho coisas para dizer e não as sei encontrar. Tenho frases misturadas de uma sintaxe incerta e incoerente. E elas escapam para dentro.
Não tenho coisas para dizer porque não as sei dizer.
E, no entanto, tenho coisas para dizer.
Apontamentos fugazes 128
«Rules must be binding. Violations must be punished. Words must mean something. »
[Obama's Prague speech, completely taken out of context, but even so…]
Trivialidades 159
papilas
pa – pilas
p’a – pilas
… não preciso de continuar a divisão silábica, pois não?
a
Apontamentos fugazes 100
Pensamentos líquidos 84
Tenho tantos motivos para me opor ao Acordo Ortográfico que nem me apetece explicar nenhum… mas, só para mostrar que tenho argumentos, e argumentos linguisticamente racionais, escolho um dos motivos: fonologia.
Escolhamos um exemplo: “acção”.
Em termos fonológicos, “acção” e “ação” são palavras diferentes. O fonema “a mais” na primeira palavra [c] existe para abrir a vogal anterior. As duplas consoantes, muito comuns no italiano (1), servem para isso. No português, isso é conseguido não só com duplas consoantes mas também com sucessões de consoantes, como [pt] (como em “baptizado”) ou [cç] (também como em “facção”). Ora, quando o [c] cai na palavra “acção” implica que o primeiro [a] passe a ser um [a] fechado como o segundo [a] de “faca”…
Foi fácil provar que não só fonologicamente as palavras “acção” e “ação” são diferentes como também o são foneticamente. E não me apetece muito dizer “ação”…
Com isto não quero dizer que a Língua portuguesa está perfeita e não deve sofrer evoluções. Isso seria idiota. Quero exactamente dizer o contrário. Provavelmente a palavra “inflação” foi um lapso e a palavra “correcta” deveria ser “inflacção” porque esta sim seria fonologicamente o que é foneticamente.
Decidi, propositadamente, não falar da etimologia aqui. É que, até um certo ponto no tempo, etimologicamente, o português de Portugal e o português do Brasil tiveram obrigatoriamente que ser iguais e depois as influências que sofreram foram necessariamente diferentes e, por isso, devem seguir rumos diferentes. Mas ao contrário do que algumas pessoas parecem achar, eu não acho isso nada negativo.
Por isso (e se ficaram sensibilizados com a minha argumentação), se quiserem, assinem a petição (Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa, Contra o Acordo Ortográfico).
(1) A evolução da Língua Italiana para uma língua sem acentos não foi extemporânea: para o fazerem de uma forma lógica, em termos fonológicos, tiverem que dobrar consoantes para manter a equivalência fonética.
Trivialidades 90
o qual/a qual
senhora doutora/senhor doutor
é bom de ver
a
Pensamentos líquidos 44
Quando olho o que leio, tudo me faz sentido. A junção de letras em palavras. A semântica para as frases. Tudo é coerente. Lógico. Legítimo. Sei que tudo não passa de uma sequência de símbolos.
Quando vejo pautas, no fundo nada mais que rectas paralelas, e olho as notas de música é evidente o que aquilo traduz. Mais do que isso. Aquilo que é. E isto mesmo com claves de dó.
Mas quando estou nas aulas de econometria ou quando olho para os meus papers cheios de expressões, pejadas de somatórios, integrais, letras gregas, só tenho vontade de rir. Nada daquilo faz sentido. Sei o que cada um significa. Sei que são símbolos. Mas, para mim, não têm significado nenhum.
Entretanto percebi. A minha mente compreende o uso da simbologia, reconhece-a em tudo, mas não percebe todas as conjunções de símbolos. E na matemática, percebi-o há algum tempo, a sequência dos símbolos deixou de fazer sentido. Para mim. E se isto me atormenta por motivos muito pragmáticos e por limitação de possibilidades, faz-me sempre pensar. Se tenho que perder o entendimento de alguma lógica simbólica, então que seja a da matemática. Gosto mais das outras.
Pensamentos líquidos 33
Peço desculpa pela possível incorrecção. É provável que a palavra nem seja "alienado", mas comporta desrespeito pelo Fernando Pessoa. Quem é que as pessoas que escreveram aquilo acham que são?
Homenagens 9
Um romance é muito mais do que uma história contada. E é aqui que – eu feliz por o poder dizer – está o último romance do José Luís Peixoto. Recomendei-o sem o ler. À confiança, sabem? É uma daquelas certezas. E agora confirmo, depois de o ter lido.
Não sou crítica literária; não quero ser. Prefiro escrever. Mas quero dizer algumas coisas sobre o livro. A escrita do JLP está mais fluida do que nos romances anteriores, é um livro menos negro do que os outros, principalmente do que “A casa na escuridão”, mais simples provavelmente, mas há coisas fantásticas nele. Admiráveis. Ele continua a escrever com um certo ritmo interno (o ex-libris do ritmo interno é António Lobo Antunes: percebem o que quero dizer?), um ritmo muito característico; aqui juntou uma maneira diferente de tratar o tempo, analepses sucessivas, misturadas, alternadas, um bocadinho à Vergílio Ferreira mas num conjunto muito permeável. É uma escrita muito doce, que embala, mesmo quando em dor. Há quase um paradoxo na fluidez e na densidade, mas não julguem que por ser paradoxo é mau.
E depois há uma coisa que vai parecer quase ridícula, mas passei o tempo todo que lia a pensar nisso. O JLP reinventou aqui o uso dos ‘dois pontos’; eu, que considerava os ‘dois pontos’ o sinal de pontuação menos interessante, reconsiderei pelo uso inteligente que ele lhe devolveu. Para terem uma noção, vou fazer uma maldade: retirar frases soltas e colá-las aqui: mas não as descolem do todo. Percebem?
«E os sons puros: nítidos no silêncio: desenhados no ar a demorarem-se breves a ecoarem na memória e a deixarem outro silêncio: outro silêncio: outro silêncio diferente.» pp 36 e 37
«Não sei como fui capaz de flutuar na vastidão dos seus olhos: o horizonte: e perguntar-lhe se o italiano não tinha deixado nada para mim. Não sei como não morri: o coração a rebentar-me no centro do peito: quando ela, sem parar de olhar-me: a pureza e a beleza: abanou a cabeça, tão devagar, para um e para outro lado: a pele lisa do seu pescoço: a maneira como os meus dedos poderiam deslizar, demoradamente, sobre a pele lisa do seu pescoço.» pp.65 e 66.
«Pousou-me o relógio na palma da mão e, depois, deixou a corrente deslizar e dobrar-se e aconchegar-se: um ninho: na palma da minha mão.»
«Correr é estar absolutamente sozinho. Sei desde o início: na solidão, é-me impossível fugir de mim próprio.» p.135
«Dessas palavras soltas, espaçadas: quase apenas as suas sílabas: cresceram frases.» p.215
Havia outras coisas para escrever, mas muitas ficaram nos momentos em que eu lia cada palavra, cada frase, cada parágrafo; naqueles momentos íntimos. Importantes. Na experiência de ter lido. E no fundo é só isso que importa. E importa.
Lembro-me de, depois de assistir a uma “conversa de café”, na qual o JLP falou do que escrevia, dele, de coisas que lhe quisemos perguntar, ter pensado «o mundo ainda não está perdido; ainda há a possibilidade de ser um mundo bom». Enquanto alguém escrever assim e for lido assim, há esperança para as pessoas.
Garanto-vos.
Pensamentos líquidos 25
Dúvidas linguísticas
Tenho imenso interesse em questões de linguística. E surgem-me muitas dúvidas. Designadamente sobre fonética. Talvez porque digo vermelho a ler o segundo “e” como [e], o “e” de pêra, enquanto a maior parte das pessoas que conheço utiliza a pronunciação [á] como em cama ou [áj], como em leite. Descobri muito (mas mesmo muito) recentemente que vários dicionários consideram as três pronúncias como correctas, ainda que considerem algumas como dialectais. Talvez um dia poste mais qualquer coisa sobre este assunto; por agora queria só deixar-vos, ou melhor, lembrar-vos que as “Dúvidas linguísticas” do site do Público são muito úteis para clarificarem questões que vão surgindo sobre a língua portuguesa.
Por curiosidade, deixo-vos esta dúvida sobre sintaxe que me faz uma confusão desgraçada: advém do uso da dupla negação e é atrozmente ilógica.
Pensamentos líquidos 15
Por motivos que, se tiver feedback suficiente e de qualidade, direi, o adjectivo “compacto” tornou-se uma palavra importante no meu léxico.
Como sabem, gosto de neologismos. E se gosto de criar termos, gosto também de criar conceitos. Não se chamasse o blog «Certezas hipotéticas»...
Neste espírito, tornou-se importante nomear a característica “compacto”. Por isso deixo à consideração dos leitores deste blog a escolha de um nome correspondente ao adjectivo “compacto”. Já houve algumas ideias – compactez, compactidão, … – mas nenhuma é lá grande coisa, pois não? Por isso peço encarecidamente propostas ou eventualmente votação sobre as minhas ideias.
Trivialidades 21
Algum dia isto tinha que acontecer. Já não aguento mais conter isto...
Digam lá se ele não é um Lucho? 
Pensamentos líquidos 14
«Então pensei: estarei doido? Que é uma palavra? Que é a fala? Mundo excessivo, mundo deserto, reinventar-te-ei todo desde as origens. Eis que um homem surgiu à tua face. De que serviria um Deus que me tivesse criado? Terei de recriar eu tudo. Terei de dar um nome às pedras e às estrelas. E só então elas serão a desgraça e a beleza.»
Vergílio Ferreira, Alegria Breve, Bertrand Ed., p. 92