Tenho procurado, desde Domingo, uma notícia decente sobre o concerto dos Muse, no Pavilhão Atlântico. E, para meu (pequeno) espanto: não achei uma. Uma! Todas as notícias/artigos que li sobre o concerto eram pouco melhores do que sofríveis. E, para além de isto me irritar, obriga-me no mínimo a tentar dar o meu contributo. O contributo de quem viu o concerto e de quem gosta de Muse. E de quem, enquanto escreve isto, se sente culpada porque devia estar a trabalhar!
Shame on you que escreveram sobre o assunto miseravelmente e shame on you que não escreveram sobre o assunto. A Resistance tour está esgotadíssima em todo o lado, os Muse anunciam datas adicionais frequentemente e nem sequer um artigo sobre o concerto? Shame on you.
Agora que já desabafei, vamos ao concerto. O concerto foi muito bom. A justificação é plain and simple: o concerto foi muito bom porque os Muse são muito bons músicos, performers profissionais e têm temas muito bons. Poderia ficar por aqui e acho que já teria sido justa. Mas não teria dito que os Muse são grandiosos, apoteóticos; também em concerto.
Contrariamente ao que se lê por aí, o concerto não resultou porque eles já tinham os fãs ganhos. Nem porque eles “popizaram" (tornar “pop”)” o som e o espectáculo. Não. Porque, apesar de já terem os fãs ganhos, os Muse fazem tudo em palco pelos temas que compõem. Em concerto, são brilhantes, perfeitos. E foram-no no último domingo. São a melhor banda que eu já vi em palco.
E este espectáculo no Pavilhão Atlântico não bateu. Não bateu por alguns motivos.
O primeiro porque o concerto de há 3 anos atrás Wembley Arena foi o melhor espectáculo que já vi.
O segundo porque eu, apesar de tudo, continuo muito próxima dos 3 primeiros álbuns da banda e senti muita falta de alguns temas, como o Space Dementia, que é uma obra-prima do tamanho do mundo ou do TSP que eu adoro. Porque apesar de compreender, eu gostava de ter ouvido o contraste dos collateral damages (nocturno do Chopin) no final do United States of Eurasia.
[Space Dementia, Origin of symmetry]
O terceiro porque apesar desta tour ser porventura mais “espectacular”, não tem tanto da “essência” histórica de Muse . Tem menos piano do Matt e tem temas como o Undisclosed Desires (The Resistance) e o Supermassive Black Hole (Black Holes and Revelations) que para os fãs “históricos” dos Muse são mais difíceis de ouvir. Abdica, do último álbum, do “I belong to you (mon coeur s’ouvre a ta voix) e de dois dos Exogenesis. E, para mim, os Muse também são isso. Isso como eu uma vez descrevi este último álbum: a sensibilidade de Chopin a encontrar uma guitarra eléctrica. Não quero que isto seja mal entendido: o alinhamento, como tocado, criou uma sequência potentíssima que só os Muse ousam.
Os motivos daqui em diante são circunstanciais. O quarto motivo é que no meu primeiro concerto de Muse eu via, de facto, o palco e a proximidade com os músicos é uma coisa inigualável.
O quinto motivo é mesmo a qualidade de som e levanta quase o meu descontentamento. Os Muse são virtualmente perfeitos ao vivo. Tão perfeitos que, no primeiro concerto, me deixaram a pensar que eram quase perfeitos demais, ao ponto de o som parecer “plástico”, quase hermético. E o Pavilhão Atlântico não é um local que faça justiça aos Muse. Não tenham dúvidas: o som dos Muse é melhor do que aquilo que ouviram ali.
O sexto e último motivo é a minha razão egoísta. Mais do que há três anos atrás, agora os Muse têm muitos fãs. E há uma parte de mim que gosta da ideia de eles serem alternativos, de não serem fáceis de ouvir. Porque não são fáceis de ouvir. Nos últimos dois álbuns eu demorei semanas a aprender a ouvi-los e indigna-me um bocadinho que cheguem pessoas e achem que Muse se digerem facilmente. Eles são muito mais do que isso.
Again, don’t get me wrong. Eu fico contente com a mundialização apoteótica e aceitação dos Muse. É merecida. Mas eu espero que seja pelo reconhecimento que os fãs lhes devem, pela qualidade inegável. Não porque subitamente é inexplicavelmente fácil para as pessoas ouvi-los.
Queria escrever um texto justo ao concerto de Domingo dos Muse e percebo que não o consegui. Também eu peço desculpa. É consequência de estar a roubar tempo ao trabalho que tenho que fazer, aos olhos ardentes e desfocados de muito tempo ao computador nas últimas semanas, à excitação de ter que lhes fazer justiça, mas acima de tudo à falta de inspiração.
Por isso, ouçam o que incluo a seguir.
[Exogenesis: symphony part 2 Cross-pollination]
[Exogenesis: symphony part 3 Redemption]
Não gostavam de ouvir isto ao vivo? Não se acham capazes de mudar o mundo com uma música?
Estes são os Muse. Acho que só queria mostrar isso com este texto . Talvez devesse ter colocado somente excertos deles em concerto. Estou certa que seria suficiente.
Julgamento do mentor dos atentados de 11 de Setembro
O julgamento do mentor dos atentados do 11 de Setembro será civil, em Nova Iorque. Apesar de não ter argumentos jurídicos que sustentem a minha posição, sou, por princípio, contra tribunais militares. Na verdade, porque me parecem sempre um pouco à margem da lei e porque tenho a sensação que os militares gostam de achar que podem impor as suas directrizes não oficiais de gang.
Agora, independentemente da correcção dos resultados e eficiência dos sistemas judiciais, considero que é nesse campo que os réus devem ser julgados. E é por isso que a solução agora definida para este caso me parece adequada e sensata. Mas espero, acima de tudo, que seja justa. a
A minha simpatia pelo Kurt Cobain vai tão para além da música quanto permanece nela. É a admiração que tenho pelos desadequados, pelos inquietos e por esses que são artistas. Por aqueles que reconhecem os erros (em si e no mundo) e sofrem por não conseguirem fazer o suficiente por aquilo em que acreditam. Por aqueles que lutam de uma maneira atabalhoada por terem sentido.
Passam agora vinte anos da edição do Bleach e o álbum vai ser reeditado, tal como um DVD com o “Live at Reading”. Há sempre uma tristeza que me trespassa quando penso nos Nirvana, no Kurt. E, no entanto, é nestas alturas, ou quando os revisito e ouço, que me lembro e penso novamente: só espero, só posso esperar, que tenha sido ela a abdicar de continuar. Porque isso já é ter algum sentido.
«Não há aqui um raciocínio nem uma lógica, ama-se com as entranhas, com o nosso íntimo ser, amamos as nossas primeiras forças jovens… Compreendes alguma coisa do meu palavrório, Aliocha? – riu-se de súbito Ivan. ‑ Compreendo perfeitamente, Ivan: apetece-nos amar com as entranhas e com todo o nosso ser… disseste-o maravilhosamente e estou muito feliz por teres tanta vontade de viver – exclamou Aliocha. – Acho que toda a gente, primeiro que tudo, se deve afeiçoar à vida. ‑ Afeiçoar-se à vida mais do que ao sentido da vida? ‑ Sim, necessariamente, amá-la mais do que à lógica, e só assim se compreenderá também o seu sentido. É isso que penso desde há muito. (…)»
«Os irmãos Karamázov», Fiódor Dostoiévski, pp. 283, Editorial Presença
Foi um mero acaso lembrar-me de iniciar este ciclo – “covers melhores do que o original”. Aconteceu porque não estava a conseguir adequar nenhuma das minhas etiquetas (pensamentos líquidos, apontamentos fugazes, homenagens, recomendações,…) a um post que queria fazer. Esse post era sobre uma canção dos Beatles recriada pelo Rufus Wainwright. E subitamente ocorreu-me que esta ideia talvez merecesse uma etiqueta própria. E foi assim. Depois, tive a certeza que não podia começar com essa versão do Rufus porque havia covers de que gostava mais. E foi assim. Que começaram os meus dilemas. Como começar? Soube que não conseguia escolher entre duas. Portanto aqui vai. Bem de seguida.
The man who sold the world
Original de David Bowie
Versão “unplugged” dos Nirvana
Sempre que vejo imagens deste unplugged penso no mesmo: este casaco de malha verde é demasiado premonitório e traz lágrimas aos olhos das pessoas.
PS. Tive que abdicar de qualidade de som e imagem para a incorporação do vídeo no blog ser permitida.
Sou mais eus do que os eus que me habitam porque há um conjunto de combinações que só em mim são possíveis e todos estes que eu sou, só uma no final tão improvável que cada mero respirar sobreavisa-me que as mentiras que julgava viver são as únicas verdades possíveis para alguém que, como eu, é tantos, mas só uma quando respira.
Estou cá, mas não estou. Entre um artigo da Economist que devo ler para me inspirar para um trabalho que devo fazer e a entrevista do Lobo Antunes à Y, perco-me. Entro no mundo de quem gosto de ler. No seu mundo hermético com poros enigmáticos.
Entro, incógnita, por um desses poros. Não me faz sentido nenhum (algum) ter que ler sobre rendibilidade e alteração da composição do financiamento dos bancos, quando há o Lobo Antunes. Adoro Lobo Antunes “to pieces”. Adoro esta sensação. Vivo para este fascínio por temas, por verdades. Mas às vezes está tão longe e eu sobrevivo esquecida do importante. Nem sempre se está preparado para o importante. Porque o importante tem que excitar como louco, o importante tem que causar uma inquietude de fazer doer. A intensidade do interesse.
Às vezes penso nos momentos. Nesses momentos. Em que senti essa “coisa”, essa excitação pelas ideias. Não há nada como essa intensidade de partilha. Tenho medo.
Porque cada vez acontece menos. Menos. Menos. É tão raro. Mas. Hoje aqui, a tentar trabalhar, mas excitada com uma entrevista. Uma entrevista. Frases soltas, quase incoerentes. Mas, ah, a excitação. Adoro esta intensidade excitada por ideias quando vêm dentro de pessoas. Só podem aparecer dentro de pessoas. Umas quantas. Tão poucas. As pessoas da partilha. Da verdade. As pessoas sem histórias.
Este é o sentimento raro que se opõe ao tédio. Talvez seja a sua raridade que lhe traz a preciosidade, o valor. Mas viveria melhor, viveria em plenitude, se pudesse ter estes laivos de intensidade diariamente. Como agora, por exemplo, em que escrevo. Escrevo sem objectivo. Escrevo sem motivo? Mas escrevo porque preciso. Escrevo pela excitação de compreender a excitação sentida. E escrevo. Escrevo. Escrevo estas palavras que vão pingando dos meus dedos. Adoro escrever a esta velocidade louca, de quem não quer perder ideias, palavras. Ideias. De não perder a excitação.
Mas a excitação é fugaz. Voa. Voa. Etérea. E eu esforço-me para a agarrar com as minhas palavras.
Lobo Antunes chamar-me-ia patética se lhe contasse isto. Teria razão.
«Também torce o nariz a que lhe falem de personagens, a propósito deste último livro (de qualquer um). - São símbolos de verdades mais profundas, não são pessoas. O que interessa são as palavras. Se eu quisesse contar histórias, contava. »
E não é que eu estou a sentir uma simpatia por um... um... um... ÁRBITRO de futebol! É o rapaz jeitoso (e grande... e atlético... e... e...) que está a arbitrar o Porto - APOEL.
Ultimamente faço atendimento telefónico. Sou um género de linha 24 para assuntos relacionados com liquidez (de bancos). E isto cansa. Não obstante, à medida que o tempo vai passando, estou a tornar-me uma profissional. Lido com estes telefonemas com uma leveza e destrezas mental e linguística que não tinha no início.
a
Mas, na verdade, nem era isto que vos queria dizer. Pois, não era. Queria falar-vos de lapsos de linguagem e de pontaria.
a
Ora, respondia eu hoje a mais umas dúvidas e a destreza linguística gerou esta frase genial "exacto, isso é o fluxo do período". E enquanto dizia esta frase crescia em mim uma imensa vontade de rir. Mas mantive-me séria, como se falar de menstruações fizesse parte de qualquer conversa de gestão de liquidez.
Provavelmente as minhas duas faixas preferidas (de momento) do Backspacer.
Há uma parte em mim que se sente atormentada por achar que o Eddie Vedder está a perder mais cabelo do que aquele que cresce, como se isso fosse, nele, impossível.
- Derrota da (ex-)Presidente da CM de Leiria, Isabel Damasceno (PSD) e vitória de Raúl Castro (PS): já sem o meu voto (que reside em Lx agora);
- Vitória com 62% de Luís Filipe Menezes (PSD) em Gaia: goste-se ou não do estilo do sr., 62% é assinalável, se comparado com 25% do segundo candidato.
O que ficámos a saber nesta noite eleitoral I a O pai de Manuel Pinho fez nascer António Costa; e O pai de Rodrigo Guedes de Carvalho fez nascer Bárbara Guimarães. a
Um Nobel da paz atribuído a Obama deixar-me-ia contente. Quando, depois de dois mandatos, ou até antes, os actos e as ideias por ele defendidas mostrassem como ele era meritório deste tipo de reconhecimento.
Mas esta atribuição, agora, não me deixou, realmente, contente. Eu acho que este foi o dia em que a Academia decidiu armadilhar um bocadinho mais o percurso de Obama (e.g.). Um caminho que, convenhamos, não é fácil.
Mas, na verdade, o que mais me irrita na atribuição deste prémio são as condições criadas para a crítica fácil. Para o “não sei o que é que ele fez em menos de um ano”, ou para “há tantas pessoas por aí a lutar há tantos anos”, ou ainda para “Ele não é assim tão bom, a comparação é que era demasiado má”. Porque todas estas afirmações podem até ser verdade, mas o prémio foi-lhe atribuído sem ele o solicitar e agora mais do que a crítica à academia, parece fazer-se a crítica aos “small achievements” de Obama. Porque não foram “small”.
E, no entanto, eu acredito. Acredito que, ainda assim, Obama irá estar à altura das expectativas que criou sobre si. E acredito, ademais, que ele É, mesmo hoje, digno do prémio. Mas esta pressão extemporânea e este convite à crítica eram tudo menos necessários.
Lembram-se das manifestações no Irão, aquando dos resultados das "eleições" que, alegadamente, reconduziram d'Ahmadinejad no cargo de presidente da “república”? Estão a ser punidas já, para além das encarcerações. Ali-Zamani, um dos manifestantes, foi hoje condenado à morte por um “tribunal” iraniano. Notícias aqui, aqui ou aqui. a
«Mas a invulgaridade e a excentricidade antes prejudicam do que conferem direito à atenção, especialmente quando toda a gente anseia por combinar particularidades e achar um pouco que seja de sentido universal no meio da ausência de sentido em geral. Ora, um excêntrico, na maioria dos casos, é um caso particular e isolado. Não é verdade?»
Prefácio de F. Dostoiévski a «Os irmãos Karamázov», Fiódor Dostoiévski, Editorial Presença