Recomendações 80

I love you, honey bear



I love you, honeybear, 2015, by Father John Misty

Trivialidades 249

Coisas que me irritam mais do que proporcionalmente

Condutores que não respeitam regras de trânsito, em exemplificação do que é tecnicamente chamado “chico espertismo”. 
Bem sei. Bem sei. Quando há tanta tragédia no mundo, isto parece pouco. Parece, talvez, mesquinho. Mas é simbólico da falta de consideração que umas pessoas têm pelas outras. E é injusto. E eu não tolero este tipo de comportamento.
E para aquele condutor que me atirou beijos depois de claramente passar um sinal vermelho e de, naturalmente, não ter prioridade quando atravessou o seu carro à frente do meu: eu não quero esses beijos, eu quero que cumpra o raio das regras de trânsito! 

Pensamentos líquidos 120

A crueldade dos seres II - a cobardia de alguns

Os recentes ataques reivindicados pelo DAESH, pelo Boko Haram e por outros grupos bélicos jihadistas, em várias partes do globo, voltaram a mostrar o mais puro desrespeito pela vida humana. 
No dia 20 de setembro, um conjunto de ataques no nordeste da Nigéria, em Maiduguri e em Monguno, causou a morte de 145 pessoas e feriu cerca de 120. Os atacantes fizeram explodir várias bombas, numa mesquita, num mercado, num centro desportivo e num check point. As pessoas, que viviam a sua vida pacificamente, foram brutalmente assassinadas e feridas.
No dia 12 de novembro, num ataque devastador em Beirute, 43 pessoas morreram e cerca de duas centenas ficaram feridas. Estas pessoas estavam perto de uma mesquita e de uma padaria. E foram brutalmente assassinadas e feridas. 
No dia 13 de novembro, noutro ataque devastador, em Paris, assassinaram 130 pessoas e feriram mais de 350. Todos os locais de ataque foram locais de lazer. E eu posso estar completamente enganada, mas eu considero que isso foi propositado, considero que foi um atentado a uma forma de vida. Também posso estar enganada, mas também me parece que o ataque perto do Stade de France tinha como objetivo fazer muitas vítimas. Novamente, as pessoas foram brutalmente assassinadas e feridas.
No dia 21 de novembro, um grupo armado fez refém dezenas de pessoas num hotel em Bamako, no Mali, acabando por matar 20 pessoas. Parece haver muitas questões ainda por responder, mas também aqui estas pessoas foram brutalmente assassinadas.
No dia 25 de novembro, houve um ataque à guarda presidencial tunisina, em Túnis, na Tunísia. Morreram 12 pessoas, num ataque também reivindicado pelo DAESH. E a conclusão não difere: estas pessoas foram brutalmente assassinadas.
Eu gostava de dissertar sobre várias facetas deste movimentos mas, por hoje, quero centrar-me apenas na crueldade, na violência. Em qualquer destes casos, morreram pessoas. Pessoas cujas vidas poderiam ser mais longas foram privadas de tempo que era delas. Pessoas que foram assassinadas. Eu poderia escrever inocentes que foram assassinados. E estaria certa. Como é que alguém, que tenha um resquício de respeito pelo valor da vida humana, pode achar que pode privar outrem do seu tempo de vida?

É a crueldade derradeira. E é indesculpável.

Pensamentos líquidos 119

A crueldade dos seres I - A coragem de alguns 

Sinto-me culpada sempre que há algo que merece a minha atenção e não lhe dispenso as linhas necessárias. Mas, muitas vezes, não consigo reconciliar-me com a crueldade que vemos, com a pluralidade de lutas que temos que lutar. E escondo-me, minimizo-me sem lutar, sem escolher algumas das lutas que me são mais próximas. Mas não o faço sem me recriminar…
Desde a última vez que vos escrevi, a propósito da greve de fome de Luaty Beirão, que tenho sido pejada de culpa por não fazer mais. Desde esse dia, aconteceram tantas coisas. Foi tanta a crueldade que prevaleceu. E eu devia fazer mais.
O julgamento dos ativistas angolanos, acusados de atos preparatórios a uma rebelião e de atentado contra José Eduardo dos Santos, começou no dia 16 de novembro. Um dos atos terríveis que alegadamente cometeram foi discutir o livro “Ferramentas para destruir o ditador e evitar nova ditadura — Filosofia Política da Libertação para Angola” de Domingos da Cruz, baseado no livro de Gene Sharp “From Dictatorship to Democracy, a conceptual framework for liberation”. Aliás, houve uma leitura pública do livro em Lisboa, no dia em que o julgamento começou, que quero aplaudir. Um livro crítico é uma coisa perigosíssima para um ditador. Porque, para um ditador, o conhecimento é terrível; equipa o povo com uma arma imensa de luta: a razão crítica. E os ditadores não se dão muito bem com a razão ou com a crítica… 
Para além do acusação ser ridícula, no pressuposto de alguma liberdade de expressão e num estado de direito (bem sei, bem sei, pouco estados são verdadeiramente estados de direito), os advogados de defesa não terão tido acesso aos processos e, com o atrasar das audições, chegou a temer-se não haver decisão antes das férias judiciais. Espero que os desenvolvimentos a relatar, no futuro, sobre o julgamento não envergonhem ninguém que defenda os direitos e as liberdades individuais. 
E espero que o mundo se mantenha atento ao que se passa em Angola. Como já disse antes, o mundo não tem o direito de os desiludir.

Poemas 50

Reconciliation

A word from you 
And I would be content 
Let me not try to be happy 
For I should not aim 
at the impossible. 

Outubro de 2015

Recomendações 79

While we’re young



While we’re young, Noah Baumbach

Pensamentos líquidos 118

Carta aberta a Luaty Beirão


Luaty, Henrique, Ikonoklasta,

Não sei como te chamar. Espero que não te desagrade que eu tente várias opções. É importante para mim poder chamar-te aquilo que gostas que te chamem.

Não nos conhecemos, por isso espero que não sintas que estou a invadir a tua intimidade ao escrever-te uma carta aberta. Achei fundamentar fazê-lo. Ao contrário de ti, não sou destemida para me colocar em perigo por uma causa. Mas tento utilizar a palavra como a arma mais forte que tenho. E gostava muito que pudesses ler estas palavras; gostava muito que estas palavras ecoassem nos planos políticos e reverberassem o suficiente para ajudar na mudança para a qual estás a contribuir.

Só posso imaginar a debilidade, a dor, que não comer te traz e o sacrifício que fazes para lutar. Mas, nessa debilidade física, todos vemos a tua força. E, por isso, peço-te, mesmo não tendo o direito de o fazer. Não deixes que te matem. A tua vida importa tanto e a tua morte deixaria um vazio infindável. A tua morte não traria a mudança que queres. Porque a tua força só pode continuar se estiveres vivo.

Por isso, vive. Vive. Por favor, vive. Porque somos nós quem te deve a ajuda possível na luta que travas. Mas não te podemos substituir na luta. Conseguiste, com essa privação imensa que passas, trazer os abusos do regime do Presidente José Eduardo dos Santos às televisões. Conseguiste que não nos esquecêssemos do que acontece em Angola; conseguiste que a imprensa, que se interessa por um tema pouco mais do que uma criança se interessa por um brinquedo antigo quando recebeu de presente um brinquedo novo, não ignorasse o que se passa em Angola. Conseguiste que discutissem novamente como uma democracia não é uma democracia só porque se chama assim. Conseguiste fazer-nos lembrar que uma democracia requer que a pluralidade de opiniões possa ser dita. Mesmo quando as Constituições o esquecem. 

Conseguiste lembrar-nos que o esforço também traz recompensa e que interessa lutar, mesmo quando o preço é demasiado alto. Conseguiste tanto. Conseguiste tanto. Mas é tempo de deixares que também lutem por ti. Só podes conseguir mais se te fortaleceres fisicamente. Bem sei, bem sei, que isso desinteressaria a maior parte daqueles que agora se interessam, daqueles que agora fingem interessar-se. Mas é tempo que outros lutem por ti. 

Sim, não tenho direito de te pedir coisa alguma. Não tenho direito, do conforto da minha casa, do conforto da distância ao regime, do conforto de quem pode escrever e manifestar-se, de te pedir coisa alguma. E, ainda assim. Peço-te: não deixes que te matem. A tua vida vale tanto. Deixa que agora outros lutem por ti, lutem contigo, lutem convosco. Porque também sei que não estás só. 

Não temos o direito de te desiludir. 

Sei que é incipiente. Sei que é nada. Mas vou tentar utilizar as minhas palavras para te ajudar.

Fica saudável.


Rita


Se quiserem assinar a petição da Amnistia Internacional - Portugal para a libertação dos prisioneiros políticos em Angola, podem fazê-lo aqui.

Recomendações 78

Je suis à vous tout de suite”, quando também a tolerância leva ao excesso

Todos nós recorremos a mecanismos de compensação para lidar com dificuldades. Alguns destes mecanismos são mais saudáveis do que outros, mas a necessidade deles é quase inexorável. 
A sequência natural da identidade humana é que estes mecanismos de compensação sejam únicos, ainda que frequentemente categorizáveis. Em “Je suis à vous tout de suite”, Baya Kasmi explora estes mecanismos na busca da identidade, numa comédia dramática provocadora. 
Há duas dimensões particularmente fascinantes no filme de Baya. A primeira está relacionada com o isolamento dos fatores sociais no desenvolvimento da personalidade. Ela mostra como, não obstante a importância do meio em que cada indivíduo se insere, as características individuais são determinantes para a constituição da sua personalidade. E mostra isto ao sujeitar dois irmãos, que vivem na mesma família, ao mesmo choque. A segunda alicerça-se na procura destes mecanismos de compensação, que acabam por ser relativamente perniciosos, num contexto de imensa tolerância. Mesmo numa família imensamente tolerante em que nada era repudiado, houve também a necessidade de procurar mecanismos de compensação extremos. 
O filme de Baya é terrivelmente complexo e parece querer conter mais do que poderia caber num filme comum. Mas dificilmente poderia ser mais verosímil. Também a vida não é organizada em pequenos compartimentos para podermos gerir cada bocadinho com tempo e em isolamento. A vida é multidimensional a cada segundo. Enquanto alguém sofre, outro ri. Enquanto alguém rejubila, outro definha.
Tenho, porém, que confessar que senti algum desconforto durante o filme. Há um pudor que não consigo afastar quando se mistura comédia num contexto de extrema dor. Mas haverá algo mais realista?
Enquanto alguém sofre, outro ri. Enquanto alguém sofre, pode também rir, exatamente como mecanismo de compensação. E eu não tenho o direito de o criticar.
Sim, vejam o filme. E fiquem a pensar sobre ele durante vários dias. Há muito em que pensar.



Je suis a vous tout de suite, de Baya Kasmi

Recomendações 77

Festa do cinema francês

Podem consultar o cartaz aqui

Recomendações 76

Benjamin Clementine

Há momentos especiais em que se encontra alguém que cria verdades inexoráveis. E estas verdades servem todos os entendimentos. São verdades perfeitas porque são arte que ecoa cá dentro. Benjamin Clementine é o artista que conheci hoje e que me deixou embevecida. Obrigada.



Benjamin Clementine, Cornerstone, in At least for now (2015)

Pensamentos líquidos 117

A angústia da escolha que é só aparente

Hoje é dia de eleições legislativas. Hoje, como nas outras eleições, votei, no exercício consciente do meu direito de voto. Do que vejo também como o meu dever de voto. 

Hoje, à semelhança do que aconteceu nas últimas vezes em que votei, senti-me mais minoria do que a minoria reconhecida. E durante o meu regresso a casa, após colocar o meu voto na urna, senti uma angústia terrível. Uma angústia de quem sabe que qualquer voto que faça não será fiel àquilo que defende. Uma angústia de quem sabe não ter votado bem. Uma angústia de quem não sabia votar melhor. A angústia obsidiante de saber que não existe um partido no qual se reveja, nem no mínimo exigível. 

Há os partidos, talvez mais realistas, mas com os quais tenho diferenças ideológicas fraturantes e nos quais não posso, nem quero, votar. Há os partidos bem intencionados, mas completamente distanciados da realidade. Há os partidos utópicos. E há os partidos que nem sabem bem o que defendem. E eu tive que votar num partido sem concordar com todos os seus princípios básicos. E isto, como cidadã, deixa-me destroçada. 

Sempre me reconheci como uma minoria. Durante muito tempo achei que por ter características e defender princípios que não são os da maioria dos portugueses, mas que seriam mais próximos das características de outros países. Estou cada vez menos certa disso. Mas as minhas características minoritárias estão a ficar de tal modo solitárias que se torna impossível fazer uma escolha política em Portugal. E não sei se quero aceitar uma das duas soluções que vejo: a primeira, entrar no mundo da política, que me desagrada e que receio me destrua; ou, a segunda, ir viver para um país escandinavo. A solução de compromisso seria começar um movimento cívico realista, consciente, humanista e íntegro. Mas não sei quanto energia terei para tal, sabendo, desde logo, que devo ser uma minoria ainda mais solitária do que julgava.

De qualquer modo, aqui fica: em termos globais, defendo princípios de uma sociedade solidária, cujos direitos humanos e cívicos nunca possam ser postos em causa, com direito de acesso à saúde, à educação e à justiça, mas com a responsabilidade pública e social de assegurar que as gerações atuais e futuras não ficam sobre-oneradas com os gastos públicos sobre-dimensionados, nem com a destruição do planeta; dentro do projeto da União Europeia que se quer melhor, mas que se sabe benéfico. Há alguém que se reveja nestes princípios fundamentais?

Mas sim… também existe a hipótese, não negligenciável, de eu não ser uma minoria tão pouco significativa. E de haver um hiato demasiado grande entre políticos e sociedade civil. Na verdade, não nego que considero que este é também um fator muito significativo nesta minha sensação de desfasamento com o poder político. De facto, em média, o trabalhador português que conheço é de melhor qualidade do que o político português que conheço…

Pois. Hoje é um dia de democracia. Mas o que sinto hoje é a frustração de uma minoria terrivelmente sub-representada. E a frustração por ser representada por uma classe política paupérrima. 


Sim. Mea culpa, também. Mea culpa. É necessário fazer mais!

Momentos de poesia 23

What are you doing here?

What are you doing here?
What do you want?
Is it music?
We can play music.
But you want more.
You want something & someone new.
Am I right?
Of course I am.
I know what you want.
You want ecstasy
Desire & dreams.
Things not exactly what they seem.
I lead you this way, he pulls that way.
I'm not singing to an imaginary girl.
I'm talking to you, my self.
Let's recreate the world.
The palace of conception is burning.
Look. See it burn.
Bask in the warm hot coals.

You're too young to be old
You don't need to be told
You want to see things as they are.
You know exactly what I do
Everything


Hidden Poems, Jim Morrison

Recomendações 75

Alt-J

Ouvi Alt-J duas vezes ao vivo antes de perceber que gostava deles. Curiosamente, percebi como aprecio a sua música quando precisei de concentração para trabalhar em algo para o qual, pouco surpreendentemente, não tinha vontade. E encontrei na música de Alt-J uma pureza incomum, um som de uma verdade inicial que ninguém parecia estar a procurar. Mas eu também quero procurar verdades assim.

Deixo-vos com Taro.



Taro, from An Awesome Wave (2012), Alt-J

Apontamentos fugazes 225

Escrever

Se começasse a escrever um texto. Mesmo desses de fingimento. Um daqueles de desinteresse. E conseguisse escrever um texto, indecente de tão bom. Se fizesse isso, talvez acreditasse em mim. Mas as palavras estão tão desorganizadas, no movimento da vida que me encarrego viver. Ah, se escrevesse um desses textos, que me fazem lacrimejar de intensidade, de autenticidade, de verdades. Se escrevesse um desses textos e pudesse acreditar em mim. 

Mas descreditei-me. E só espero o que não posso ser.

Apontamentos fugazes 224

Your voice entering my ears feels so enthralling. The words you wrote and that you sing are so deep inside me now. I am having sex with your voice. 

Poemas 49

Sei lá

Sei lá o que fazer à vida,
estes dias que a morte me empresta,
como se fizesse um favor.

Sei lá como preencher os dias
quando todas as opções estão erradas
e não existe uma saída.

Sei lá onde achar respostas
depois de tanto procurar
e esmiuçar possibilidades invisíveis.

Sei lá como me perpetuar
se nem quero uma reencarnação
e as palavras não são suficientes.

Sei lá como achar um sentido
Se a única conclusão que retiro
É não poder existir sentido algum.

[Junho de 2015]

Melhores temas de sempre 13

Fistful of love – Antony and the Johnsons


Momentos de poesia 22

Saudades

Saudades! Sim... talvez... e porque não?...
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como pão!

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!

Florbela Espanca

Recomendações 74

Ex-machina, realizado e escrito por Alex Garland

Trivialidades 248

Variações de coisas que me irritam mais do que proporcionalmente
  • pessoas que carregam nos dois botões do elevador (“para cima” e “para baixo”) quando só querem ir numa das direções;
  • pessoas que passeiam no elevador na direção oposta à que querem ir.

Momentos de poesia 21

I know the truth! Renounce all others!

 I know the truth! Renounce all others!
There’s no need for anyone to fight.
For what? – Poets, generals, lovers?
Look: it’s evening, look: almost night.

Ah, the wind drops, earth is wet with dew,
Ah, the snow will freeze the stars that move.
And soon, under the earth, we’ll sleep too,
Who never would let each other sleep above.


Marina Tsvetaeva

Recomendações 73

Interstellar, realizado por Christopher Nolan


Trivialidades 247

Uma versão de violação da privacidade

Há alguns dias, num aeroporto da União Europeia continental, fui sujeita a uma revista completa da minha mala de viagem de mão, julgo que parte de um sistema de revistas aleatórias que têm que cumprir. Um segurança, relativamente delicado, tentou explicar-me que, em março, a UE tinha introduzido novas regras, querendo dizer-me que não podia evitar a revista.
Da prática observada, já há muitos anos assumo este poder de revista por parte dos seguranças dos aeroportos. Mas nunca, até hoje, me tinham revistado a bagagem completamente, sem exceção, à minha frente. Nos Estados Unidos já me revistaram as bagagens, provavelmente mais cabalmente, com maiores consequências físicas, líquidos derramados, roupa suja, estragos. Para Londres, chegaram mesmo a destruir-me uma mala de viagem numa destas revistas. Mas hoje senti-me tão brutalmente invadida, tão exposta. Talvez porque alguém, com umas luvas grosseiras, de pouco cuidado, tocou na minha roupa interior, inspecionou os meus produtos de higiene,... tocou na minha roupa interior! Há algo de brutalmente abusivo em alguém, que não queremos, tocar a nossa roupa interior. Mesmo que com luvas grosseiras.
No final não deixei o segurança, verdadeiramente delicado, arrumar a bagagem. Não o pude impedir de mexer na minha roupa interior, mas não o ia deixar tocar-lhe mais do que o obrigatório.
Prezo muito a minha privacidade, apesar de estar disposta a abdicar de parte para aumentar o nível de segurança pública. Mas ninguém, sem culpa, devia ser obrigada a ver alguém, que não quer, tocar na sua roupa interior.

Apontamentos fugazes 223

Ecos

«A vida era uma corrida constante, cheia de deveres. Todas as relações eram difíceis, forçadas. Não tinha – ou julgava não ter – um momento para retomar o fôlego; nunca um instante em que não me sentisse culpado por alguma coisa que devia ter feito. Quando me levantava de manhã parecia-me ter o fardo do mundo às costas. (…)
A depressão transforma-se num direito, quando olhamos à nossa volta e não vemos nada nem ninguém que nos inspire, quando o mundo parece resvalar para um pântano de inépcia e de tacanhez materialista. (…)
A política, mais do que qualquer outro sector da sociedade, está entregue aos medíocres, (…) Hoje, para a maioria, democracia significa ir, de quatro em quatro ou de cinco em cinco anos, pôr uma cruz num bocado de papel e eleger alguém que, justamente por ter de agradar a muitos, tem necessariamente de ser mediano, medíocre e banal como são sempre todas as maiorias. Se alguma vez existisse uma pessoa excepcional, alguém com ideias fora do comum, com um projecto que não fosse apenas o de convencer toda a gente com promessas de felicidade, essa pessoa nunca seria eleita. Jamais teria o voto da maioria.»

Tiziano Terzani, Disse-me um adivinho, 2ª ed., Tinta-da-china, 2010, pp. 359 e 360

Apontamentos fugazes 222

As palavras de todas as explicações

Espero, em utopia, encontrar as palavras de todas as explicações. Como Stephen Hawking procurava encontrar uma equação elegante que tudo explicasse; eu procuro um texto que tudo compreenda, que tudo me explique. Mas independentemente da quantidade lexical, não há semântica que o consiga abarcar.

Homenagens 70

Damien Rice

There is an authenticity in music that I cannot often find in other fine arts. It is a complete truth that other people may find in other things, I guess. It is a whole authenticity that makes me smile, uninterested of the rest of the world. Music gives me an enlightened contentment that completes me. Music reveals all the intensity I hunger for, but which I so rarely find.
I do not think I could keep myself permanently in this elated state of intensity. It would be too overwhelming. This state gives away and withdraws an energy I do not possess and cannot conjure. I can only benefit from it in these special moments. These moments of authenticy, of truth. These moments in which I know there is something more. Moments in which I recognise there is something that pleases me in such a full and absolute manner and it frightens me tremendously knowing I can lose it.
Damien Rice did this to me today. And how can I ever thank him? The music he writes, undoubtedly not for me, unaware of me, gives me exactly what I look for. So, I do want to voice my gratefulness.
Damien, thank you for writing tunes; for rediscovering yourself into this new album. Thank you for the authenticity, for all the truth. Thank you for helping me being at the top of the rabbit’s hair, no longer indifferent to what is more important in life, to the hunger of searching, to the quest of asking. Thank you for reminding me that art is so much more important than what I do. Albeit sad, this is so damn important. It gives me the only hope I can ever achieve without deceiving me. The only way out I want.
So, yes, I think what I want to tell you is: thank you for reminding me of my way out.


Damien, Rice, The greatest bastard, from My Favourite Faded Fantasy, 2014

Homenagens 69

Camille Muffat, nous te pleurons


Só uma homenagem. 

Homenagens 68

Boyhood, de Richard Linklater

Há muitos filmes. Há alguns que são verdadeiramente bons e verdadeiramente importantes. Mas Boyhood é uma obra-prima. É um épico da condição humana moderna. Que não se coibe de esmiuçar, com uma elegência de um filme francês bom, mas com a intensidade de um filme espanhol, todas as dificuldades e desafios do percurso de cada vida humana. Para chegar à conclusão desarmante de nada ser mais do que uma coleção dos momentos, alguns especiais, mas que fica sempre aquém.

«I thought there would be more.»

Poemas 48

Conhecimento

Conheço-me ao detalhe do átomo,
interpretada em mil palavras.
Conheço-me à inexorabilidade da reflexão
a encontrar sentidos no meio da desordem
e a viver na fímbria da possibilidade.

Conheço-me ao som das entrelinhas
perdidas nos esconderijos dos outros.
Conheço-me de dentro do palco de dentro
nas vozes das personagens que me olham
e que eu sou, na indissociabilidade de mim.

Conheço-me na consciência angustiante
de não conceber soluções transcendentes,
e paradoxalmente me estimar pela conclusão.
Conheço-me tanto que nem o desencanto da vida
Me retira o contentamento do conhecimento.

Janeiro de 2015

Homenagens 67

Kurt, we miss you

We really do miss you.

«Nirvana defined a moment, a movement for the outsiders: for the fags and the fat girls and the broken toys and the shy nerds and the goth kids from Tennessee and Kentucky, for the rockers and the awkward, and the fed-up, the too smart kids and the bullied. We were a community, a generation; in Nirvana’s case, several generations; in the echo chamber of that collective howl, and Allen Ginsberg would have been very proud, here.
That movement and that voice reverberated into music and filme, politics, a worldview, poetry, fashion, art, spiritualism, the beginning of the Internet and so many fields in so many ways is our lives. This is not just pop music – this is something much greater than that.» – Michael Stipe


Nirvana, com Annie Clark, Joan Jett, Kim Gordon e Lorde. Introdução de Michael Stipe

Trivialidades 246

Perigos nos passeios

Devia haver um sítio onde se ensinasse a transportar chapéus de chuva em segurança: estou farta de me sentir ameaçada por inúmeros chapéus de chuva em riste.

Homenagens 66

Thom Yorke e PJ Harvey


The mess we’re in, por Thom Yorke e PJ Harvey, em “Stories from the city, stories from the sea”, de PJ Harvey

Pensamentos líquidos 116

Os assassinos do Boko Haram

Continua a ser tempo de indignação. E é tempo (ainda que tardio) de se fazer alguma coisa. Leiam o relatório da Amnistia Internacional ou esta notícia do Público sobre o que o Boko Haram continua a fazer na Nigéria e interiorizem a violência que está a ser permitida.
Mas não quero deixar de copiar alguns parágrafos do relatório da Amnistia. As palavras são poderosas e podem chocar o suficiente para estimular a indignação e, mais importante ainda, a ação.
«A man in his fifties told Amnesty International what happened in Baga during the attack: “They killed so many people. I saw maybe around 100 killed at that time in Baga. I ran to the bush. As we were running, they were shooting and killing.” He hid in the bush and was later discovered by Boko Haram fighters, who detained him in Doron Baga for four days.
Those who fled describe seeing many more corpses in the bush. “I don’t know how many but there were bodies everywhere we looked,” one woman told Amnesty International.
Another witness described how Boko Haram were shooting indiscriminately killing even small children and a woman who was in labour. “[H]alf of the baby boy is out and she died like this,” he said.»

Devemos ficar indignados. As pessoas sofrem. As pessoas morrem. E é tempo de se fazer alguma coisa.

Pensamentos líquidos 115

Je suis Charlie aussi

Nos últimos dias, após o ataque às pessoas que trabalhavam para o Charlie Hebdo e a sequência posterior de eventos, houve uma indignação generalizada do mundo. Houve uma indignação contra a violência e contra o ataque à liberdade de expressão. E esta é, para mim, uma indignação válida. Pode não ser indignação suficiente, mas é válida.
Muito se tem falado e escrito sobre o ataque. Mas no meio de tanta tinta, parece-me ter sido um pouco negligenciado o que estes ataques significam, para além de pura e malevolente crueldade. Estes ataques significam medo de quem questiona. Medo do esclarecimento. Medo da consciência. Não quero, como pessoa convictamente ateia que sou, fazer uma crítica generalizada à religião. Até porque isso seria, naturalmente, idiota. Também não quero entrar nas questões filosoficamente relevantes porque, bem... tiraria o foco deste texto. Quero apenas dizer que a religião míope praticada por essas pessoas que se dizem fieis, mas andam por aí a matar outros, cresce e prolifera muito mais facilmente na ignorância. Na ausência de sentido crítico. E os cartoons significavam essa necessidade de não aceitar sem questionar. Eu espero que com esta indignação (re-)nasça um novo movimento pelo esclarecimento, pelo conhecimento. Que, na verdade, já tem uma madrinha tão nobre na Malala.
Muito se tem falado e escrito sobre o ataque. E no meio de tanta tinta, parece-me haver alguns excessos. Para algumas pessoas, a indignação tem sido desproporcionada porque não encontrou igual noutros casos igualmente repudiáveis. Eu acho que não devemos ficar indignados com a indignação legítima contra a crueldade, contra a violência gratuita, contra a ignorância. Devemos, sim, ficar muito, mas mesmo muito, indignados quando Assad e o Estado Islâmico continuam a matar pessoas, mais ou menos indiscriminadamente, e ninguém se indigna. Devemos ficar indignados quando a Rússia mata ucranianos na Crimeia e meio mundo olha para o lado. Devemos ficar indignados quando violam mulheres na Índia e saem impunes. Devemos ficar indignados com os ataques israelitas aos palestinianos em Gaza. Devemos ficar indignados com os raptos do Boko Haram. Devemos ficar indignados. As pessoas sofrem. As pessoas morrem.
As pessoas morrem... E muitos esquecem. Sim, devemos ficar indignados com isso. Não com a indignação do que indigna.

Pela indignação


Eddie Vedder e Paulo Furtado, cover de Masters of War, de Bob Dylan

Pensamentos líquidos 114

Tédio

Há uns dias atrás, algures ainda no ano passado, escrevi um texto não muito bom sobre tédio. Já algum tempo que queria escrever sobre tédio. Mas o texto que escrevi era, quanto muito, medíocre. Curiosamente, não sei onde gravei o texto. Por isso, hoje, decidi escrever novamente sobre tédio.
O tédio é um sentimento humano com o qual me identifico demasiado. Tenho dele consciência nos dias de ligeiro menor stress ou nos dias de irritação com o trabalho. É muito raro sentir tédio fora do local de trabalho. E quando o sinto é normalmente associado a um cansaço excessivo que me leva a um estado estranho de alienação, em que tento tudo para nada fazer.
O tédio é ubíquo. Quando se sente tédio, sente-se em todo o corpo, nos poros; no espaço que nos rodeia. É como uma camada pegajosa dificílima de ultrapassar sem um mind changer. Para mim, a arte pode vencer o tédio. Mas, às vezes, não me permitem a arte. Às vezes, não me desobrigo do tédio.
O tédio é paradoxal I. O conceito de tédio é interessantíssimo de um ponto de vista filosófico. E, todavia, a sua existência, ou melhor, a sua consciencialização é uma agressão ao mais humano que temos. Para mim, a filosofia pode vencer o tédio.
O tédio é paradoxal II. Se, por um lado, é um sentimento muito sufocante de perda de tempo, potencialmente útil para uma atividade ou pensamentos interessantes e portanto não entediantes; é por, outro lado, um momento de consciencialização. E um momento de consciencialização não deveria ser um momento de tédio.
O tédio é angústia. Mas do conceito do tédio nasceu este texto. E eu com tantas saudades de escrever, criei-o. E na escrita, talvez só na escrita, crio autenticidade, crio verdades. E nessa autenticidade da auto-compreensão não há tédio. Nessa autenticidade da escrita – que tanto me foge – eu sou mais eu.
Pois. Talvez não tenha sido mau esquecer-me onde coloquei o texto inicial.