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Contos 19

Ciclo P (revivido) - Palavras de Verlaine em jactos de tinta de Álvaro de Campos

Sabe, tenho um texto para lhe escrever. Só não sei que palavras utilizar. Rimbaud disse, um dia, a Verlaine, que antes de o conhecer tinha muito para escrever mas não sabia como: não sabia que palavras utilizar e que forma lhes dar.
Eu já defendi formas e até escolho as palavras em todas as situações, mas agora tenho um texto para lhe escrever e as palavras estão presas na minha caneta. É como uma necessidade potencial de escrita, ainda sem consubstanciação.
Há palavras que tentam escapar-se pelos meus poros e coisas dentro do meu corpo a agarrá-las. Tenho a sensação que se uma palavra saísse, sairiam todas em catadupa. E eu escreveria, à Álvaro de Campos, de pé, a uma cómoda, num jacto de palavras, durante horas.
Estou a explodir com vocábulos dentro do corpo, misturam-se, chocam, arranjam-se, re-arranjam-se, mas teimam em não sair. Por dentro, o meu corpo é composto de palavras, talvez frases, mas para a minha caneta, nenhuma escorre. Acho que lhe chamam bloqueio de escritor.
Mas sorria. Sorria outra vez. Este texto é para si. E não consigo escrevê-lo.

[Outubro de 2007]

Contos 14

Ciclo P - Procuro palavras

Às vezes procuro palavras. Para te dizer. Mas há correntes a prender-me, as palavras não são soltas; tudo permanece num sítio intermédio e há forças dos dois lados: nasce uma vontade envergonhada de chutar as palavras num impulso de vocabulário enquanto os músculos se contraem para reabsorver a audácia da tentativa.

E então quero – e não quero – desbloquear a indecisão: rendo-me à inércia, a um silêncio que não comprometa, como se isso continuasse a permitir tudo no futuro. Permitisse as palavras. Evitar os lugares-comuns, não quero debitar-te banalidades; não quero dizer-te aquilo que qualquer outra pessoa poderia dizer.

E, no entanto, às vezes, surge aquela vontade estranha de te dizer aquelas palavras. Talvez chamar-te. Uma daquelas palavras. Sem ser ridícula, sem precisar de o repetir se não me apetecer. Uma vez. E esgotá-las. Mas há uma incoerência. Como é que posso utilizar, em ti, as palavras que gasto noutras pessoas?

Às vezes procuro palavras. Para te dizer. Mas há palavras que não sei falar. Talvez desconheça o seu significado. E calo-me. Não te posso chamar significados que desconheço.

Contos 13

Ciclo P - Pensar

Penso com palavras. Poderia não o fazer. Decerto outras pessoas pensam através de outras coisas: imagens, fluxos, com concretização de ideias… Eu? penso com palavras. E gosto de pensar assim porque, para mim, faz sentido. Eu crio ideias pelas palavras. Esgrimo argumentos com palavras. Esclareço dúvidas com palavras. Crio mais dúvidas com palavras. Atrapalho-me com palavras. Percebo-me com palavras. Palavras. Palavras. Palavras. Adoro palavras. Repito-as à exaustão da minha mente e mesmo assim. Nunca serão suficientes.

Deveria saber todas as línguas do mundo e mesmo assim. Nunca seriam suficientes. Penso-as e mastigo-as, retiro-lhes a essência, degusto-as e volto a pensá-las. Em ciclos simultâneos e verdadeiros.

Peçam-me o que quiserem. Mas não me peçam para atraiçoar aquilo que me permite pensar.


Março de 2007

Contos 12

Ciclo P - Palavras

Sabes. Talvez se eu começasse a juntar letras. Teria palavras em pouco tempo e, com um pouco de rapidez, uns movimentos de dedos, e talvez frases. Preciso de frases, semântica coerente que me permita realizar o que é pré-verdade, pré-existência. Mas ainda ninguém. As palavras conhecem-nos antes dos outros. As frases a seguir. A coerência de um texto então conhece tudo, permite tudo. Só o que as palavras expressam é criado, ainda que sejam palavras mentais, ainda que não tenham ainda saído. Assim, presas, agrilhoadas nas dificuldades de expressão. Mas já se conhecem a elas e pré-conhecem as verdades que vão habitar. São o veículo maior. As palavras. Sabes. Só elas permitem que existamos. Se não pudesse dizer o teu nome, continuarias a existir? Acho que não, eras menos, eras diferente. Eras? Serias. Porque já és porque o estou a escrever. As palavras já te habitaram e tu habitaste as palavras. Cada palavra é única mesmo que igual a anterior; já quer dizer outra coisa quando repetida, quer dizer outra coisa quando deslocalizada, quer dizer outra coisa noutra boca, noutros dedos, noutra caneta.

Por isso só preciso achar as palavras, construir as frases, ter o texto. E dizer tudo. E tudo ser verdade. Inexoravelmente, nos segundos variáveis que depois cada pessoa demora a ler.

Contos 11

Ciclo P - Seiva


Nenhuma das palavras tem agora significado. Retirei-lhes todo o sabor, são todas minhas. Trinquei-as, esmaguei-lhes o volume, senti a seiva a escorrer na minha boca, a interagir com a minha saliva. Tenho o sabor a fluir-me no corpo; percorre-me as veias, estimula-me as sinapses. O texto é agora oco, tudo o resto compõe-me o corpo. É meu.

Desculpa. Roubei-te.