Pensamentos líquidos 51

A língua na arte

Prefácio

Isto anda a atormentar-me a mente há muito tempo. O Sam the kid decidiu (?), no tema «Poetas de karaoke» criticar veementemente todos os portugueses que fazem arte noutra língua. Ora, o que é que ele diz? Coisas como as que transcrevo abaixo…

Dizem que cantam hip hop, mas não dizem nada,
Vêm com poesia mas é só fachada
O português não ‘tá cansado eles vêm com o inglês,
Eu pratico praticando a nossa língua outra vez
(…)
Isto é pa tugas que nunca escrevem na língua raiz
Querem ser internacionais mas ‘tão cá no país
(…)
Eu nunca precisei de ouvir hip hop tuga pró fazer
Isso é que dá mais prazer, o meu idioma exploração
Vocês tentam outra língua pra tentar exportação
Querem ser os "moonspell" querem novos horizontes
Mas aqui o samuel é madredeus é dulce pontes
Porque há uma identidade, vocês são todos idênticos

E o que é que eu tenho para dizer sobre isto?

1. Duvido sempre de quem acha que a arte é pura construção. Eu não escrevo em português só porque quero. Escrevo em português quando quero e quando tenho que. Escrevo em inglês quando quero e quando tenho que. E o facto de não dominar outras línguas do mesmo modo que domino estas não me impediu de já ter escrito noutras línguas também. Porquê? Porque precisei e porque quis;
2. Mesmo supondo que a arte é pura construção, que motivos existem para alguém escrever na sua língua de origem? Nenhum que eu veja racional. A arte é uma forma de expressão aliada a um exercício estético, nunca deveria ser entendida como uma bandeira. Imagino que o Sam também critique pintores, artistas plásticos, aliás todos aqueles que não usem a sua língua original para expressarem a arte;
3.Ele assume, toma como dado ou acredita mesmo, que uma nacionalidade ou uma língua confere ou, pelo menos, compõe uma identidade. Eu acho isto, no mínimo, espúrio. Acho que podemos estar muito mais perto de pessoas cujo BI é muito diferente do nosso, mas que partilham connosco características intrínsecas e criadas; ou seja, a identidade pode ser completamente díspar dos factores que não podemos influenciar à partida (e.g., sexo, nacionalidade, cor de pele,…);
4. Critica directamente pessoas que decidem (?) fazer / fazem arte noutras línguas e utiliza os Moonspell como bode expiatório e chega a avançar motivos oportunistas para eles o fazerem. Julgo mesmo ter havido uma discussão entre ele e os Moonspell a este propósito.

Carta aberta ao Sam the kid e demais

Sam, m’man

Ouço hip hop há muito. Por acaso, até ouço muito hip hop português. Por ser português? Não. Porque gosto. Esta tua letra só fez com que eu tivesse perdido toda a vontade de te ouvir. Detesto nacionalismos. Perdeste uma pessoa que até podia comprar os teus álbuns, a tua obra. Agora vou achar sempre que, para além da tua arte não ser suficientemente “pura”, o importante para ti não é a arte, mas o acessório, a maneira de a fazer e que, por isso, a tua obra é pouca… artística.

Acho muito desagradável que critiques quem quer fazer/faz arte de outro modo. Considero que, acima de tudo, não tens nada a ver com isso. E, se calhar, até mordias a língua antes de falar dos Moonspell. É que começo a ficar com a sensação que a qualidade para ti não é relevante, só a língua e essa, meu caro, é só uma característica.

Falo de barriga cheia. Gosto imenso de trabalhar o português. Podia não gostar, mas acho o português uma língua muito interessante – dá trabalho, mas tem uma potencialidade enorme. Mas já dizia o senhor Wittgenstein que só existe aquilo que sabemos dizer e, quando o português não me permite dizer o que sei existir, fico muito orgulhosa em poder utilizar outras línguas. As complementares de uma língua são aquilo que lhe quebra as correntes e, digo-te, todas as línguas têm correntes. Eu? Detesto estar presa; talvez tu gostes de estar agrilhoado.

Felizmente a minha arte é a minha liberdade, a minha catarse, a minha certeza de perfeição. A tua pode ser a prisão e eu respeito, é tua. Mas nunca te atrevas a criticar a maneira como eu vejo a minha.

Got the point?

Rita

1 comentário:

Fialhito disse...

O "Sam, The Kid" virou estandarte da cultura portuguesa ao lançar um álbum em que critica os artistas lusos que usam a língua estrangeira como 1ª opção.
Mas... então... porquê "Sam, The Kid" e não "Samuel, O Puto"??!??!